#2 - Três Reinos
Saberes druídicos em forma de contos
O dia estava frio e nublado na cidade movimentada onde a mãe de Ana morava. Ela crescera naquele prédio em meio a uma avenida barulhenta. As buzinas e motores automotivos só davam descanso durante a madrugada.
Ana estava passando o fim de semana por ali, mas precisava fazer uma prática de conexão com os Três Reinos. Não imaginava como seria capaz de fazer aquilo em um lugar tão cinza. Não havia canto dos pássaros, nem árvores, tampouco terra onde pudesse firmar seus pés. Embora seus mentores disessem que a única coisa que ela precisava era uma mente concentrada, a frustração tomou conta de Ana. Foi justamente por conta de toda aquela agitação que ela se mudara para um lugar pacato em meio à natureza. Jamais conseguiria seguir uma espiritualidade da terra em um ambiente tão urbano.
Mesmo frustrada, ela se propôs a fazer o exercício. Respirou fundo uma vez, imaginando a terra abaixo de seus pés. Uma moto buzinou tão alto que fez Ana estremecer e esbravejar — xingando até a última geração do motociclista. Ela estava tensa e irritada, quase desistiu do exercício, mas então lembrou que tinha um fone abafador de ruídos.
Colocou os fones e uma nova onda de paz invadiu seu coração. A tecnologia pode ser muito útil até mesmo para processos espirituais. Forrou uma manta no chão e jogou algumas almofadas. Acendeu um incenso de Sálvia Branca e lavou as mãos com água fresca. O segredo era se acalmar e preparar o ambiente para que ficasse o mais aconchegante possível.
Com tudo pronto, ela se deu uma nova chance. Respirou fundo uma vez, imaginando o mar em volta de si. Relaxou os pés, as pernas e o abdômen. Respirou fundo uma segunda vez, imaginando a terra abaixo de si e tocando sua pele. Relaxou o ventre, os braços, as costas, o coração. Respirou fundo uma terceira vez, imaginando o céu acima de si. Relaxou o pescoço, a boca, os olhos, a cabeça.
Ana continuou por um tempo sentindo o relaxamento do corpo e aos poucos deixou que sua consciência fosse tomada pela presença dos Três Reinos. Raízes saíram da sola de seus pés e desceram profundamente pela terra, até encontrarem as águas geladas do subsolo. Águas que subiram até a região de seu ventre, nutrindo-a. Galhos e folhas subiram pela sua cabeça até chegarem ao céu, recebendo o calor do Sol e a luz das estrelas, que desceram e se encontraram com as águas frias em seu ventre.
Com todo aquele fluxo de energia e poder dentro de si, Ana estava preparada para se aprofundar no exercício: chamar pela presença dos Três Reinos e criar um espaço sagrado de conexão com o Outro Mundo:
— Eu chamo pela força da Terra, que sustenta os meus pés e alimenta o meu corpo físico. Forças poderosas de fertilidade. Forças que sustentam sementes, raízes, micélios e impedem que a terra se abra e engula tudo que é vivo. Eu chamo pela força do Mar, que sustenta as minhas emoções e mantém a memória dos meus Ancestrais viva. Forças poderosas de movimento, vida e cura. Forças que impedem que as águas subam e afoguem tudo que é vivo. Eu chamo pela força do Céu, que sustenta a sabedoria e a inspiração. Forças poderosas de criatividade. Forças que sustentam o Sol, a Lua e as estrelas. Forças que impedem que o céu caia e esmague tudo que é vivo. Eu sou Ana, e chamo pelos Três Reinos. Que eu seja um elo entre Terra, Mar e Céu.
E ela se tornou esse elo. Ana estava entre os mundos, naquele lugar que não é aqui e nem lá. A borda entre tudo que é vivo e morto. Seu espírito atravessou as névoas em busca dos poderes do Outro Mundo. Ela abriu os olhos e viu que estava no apartamento de sua mãe, mas que também estava em outro lugar ao mesmo tempo. Sua parte física ouvia os sons externos, sentia o piso frio e via os outros prédios pela janela; mas sua parte espiritual ouvia vozes e melodias, sentia a umidade da terra abaixo de seus pés e via Deuses, espíritos ancestrais e animais de cascos, penas e escamas. Um aroma de terra molhada e folhas decompostas invadia todo o espaço.
E ali, naquele lugar entre-mundos, Ana entendeu que não precisava estar fisicamente em uma floresta para sentir a terra. Não precisava subir uma montanha para estar perto do céu, ou ir à praia para ver o mar. Seu espírito era a única ferramenta necessária para trazer a força dos Três Reinos pra perto de si. E ela teve certeza que naquele momento toda e qualquer palavra que fosse proferida por sua boca seria ouvida pelo Outro Mundo. E assim ela fez: cantou canções exaltando seus Deuses, agradeceu seus Ancestrais, teceu encantamentos, recitou suas poesias e sussurrou orações. E também ouviu atentamente. Cada palavra, cada sussurro, cada melodia e murmúrio. A conexão foi tão poderosa que nenhuma buzina seria capaz de interromper.
Quando sentiu que era hora de voltar, agradeceu ao Outro Mundo e aos Três Reinos pela troca poderosa. Recolheu suas raízes e seus galhos e dissipou a energia. Ela entendia que era necessário esse processo, caso contrário sua energia física poderia se exaurir e causar problemas. Toda conexão iniciada precisava ser encerrada. Todo portal aberto precisava ser fechado. O apartamente de sua mãe voltou a ser apenas um apartamento, não mais um espaço ritualístico entre-mundos. E Ana estava completamente de volta ao seu mundo. Voltou diferente, com mais vigor, com o espírito renovado, como todas as vezes em que ela se conectava com o Outro Mundo. Essas experiências sempre mudavam algo nela. Era impossível voltar a mesma pessoa.
FIM.
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